8 de Março - Manifesto das Mulheres do Rio de Janeiro

MANIFESTO DAS MULHERES PARA O 8M/2019 – RJ Pela vida das mulheres. Justiça por Marielle, democracia e direitos! Somos contra Bolsonaro e a reforma da previdência!

Foto: Karol Moraes/DisparadorA

Quem somos?

Somos mulheres, milhões e diversas. Somos brasileiras e imigrantes. Jovens, adultas e idosas. Negras, brancas, indígenas. Trans, travestis, intersex. Somos lésbicas, heterossexuais, bissexuais, assexuais, pansexuais, polissexuais. Casadas ou solteiras, temos crias, ou não. Somos filhas e avós. Trabalhadoras e estudantes. Artistas, funcionárias públicas, empregadas domésticas, pequenas empresárias, camponesas, camelôs, professoras, cientistas, profissionais do sexo. Empregadas, desempregadas, no trabalho precário. Em moradias precárias, sem teto, sem terra. Mulheres com deficiência, de diferentes religiões e sem religião. Somos contra a reforma da previdência. Cuidamos do trabalho doméstico, ocupamos lugares na política, nas arquibancadas dos estádios de futebol, nos lugares de divertimento.

Hoje, dia internacional de luta das mulheres, estamos de cabeça erguida e de mãos dadas com as mulheres de todo o mundo, nas ruas para conquistar um outro mundo possível. Protagonizamos a luta #EleNão, responsável por levar as eleições no Brasil para o segundo turno e retornamos às ruas contra os ataques deste governo ultraliberal na economia, autoritário na política e conservador nos costumes. Estamos na rua por Marielle Franco e pelas nossas vidas!

Pela vida das mulheres! Lutar contra a violência machista!

  • Vivemos no quinto¹ país que mais mata mulheres no mundo e onde estão concentrados 40% dos casos de feminicídio da América Latina². Dentre as assassinadas, 66,7% são negras³. No Rio de Janeiro, uma mulher foi morta a cada 24 horas nos primeiros 4 dias de 2019. O Brasil também é o campeão em mortes de travestis e transexuais do mundo: aqui a expectativa de vida de uma transexual é de apenas 35 anos.

  • O Governo Bolsonaro apresenta como alternativa para combater a violência o armamento da população. No entanto, sabemos que armas de fogo matam principalmente pessoas negras (69,8% das mortes por armas de fogo em 2014 foram de pessoas pretas e pardas), são o principal meio de agressão contra pessoas LGBTs (em 2013, 21,9% dessas agressões foram tiros) e que não é verdade que armas de fogo ajudam mulheres a se protegerem de violência doméstica, pois é aí que a violência contra as mulheres acontece, na grande maioria dos casos. A posse de armas, aliada ao discurso de combate à violência com mais violência, corrobora e avaliza os crimes de ódio que aumentam a barbárie machista contra a vida das mulheres.

  • Protestamos contra as recorrentes declarações da Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Damares Alves, ao afirmar que meninos vestem azul e meninas vestem rosa, busca reforçar estereótipos de gênero, naturalizar papéis sexuais e impor uma visão conservadora – ancorada no fundamentalismo religioso – cujo resultado é o aumento da opressão, do controle sobre os corpos e o consequente aumento da violência LGBTfóbica. Ela deseja girar a roda da história para trás. Lugar de mulher é onde ela quiser!

  • Neste dia marchamos por uma cidade em que caibam nossos corpos, com ruas iluminadas, transporte público seguro e de qualidade; pelo direito à moradia digna e a uma segurança baseada na vida das pessoas. Lutamos pelo direito de andar nas ruas sem violência e sem assédio em qualquer hora do dia, lutamos pelo nosso bem.

  • Lutamos pelo direito ao nosso corpo. Contra a violência obstétrica, pelo direito ao parto digno e respeitoso com autonomia e nosso protagonismo, repudiamos os ataques às políticas de prevenção e contracepção, que se escondem por trás do discurso do direito à vida. Lutamos pelo SUS. Um Sistema Único de Saúde que suporte o aborto legal, seguro, gratuito, garantidor da vida. Para que mais nenhuma mulher pobre seja vítima da indústria abortiva da Nenhuma a menos, nos queremos vivas!

Justiça por Marielle!

  • No próximo dia 14 de março fará um ano das execuções de Marielle Franco e Anderson Gomes. Marielle – mulher, negra, favelada, lésbica, ativista de Direitos Humanos – atuava para melhoria das condições de vida da população negra e pobre do Rio de Janeiro, sendo exemplo na luta contra as milícias e seus tentáculos na política da cidade. Não temos dúvida: seu assassinato foi político! Marielle pagou com sua vida, pois incomodou aqueles que mandam no Rio de Janeiro.

  • Como sementes de Marielle, denunciamos a política higienista do governador Repudiamos sua ordem para “a polícia mirar na cabecinha e… fogo”, e seu projeto de encarceramento em massa, que privilegia a construção de prisões em detrimento da construção de escolas – em tempos de déficit de 20 mil vagas nas escolas estaduais –, pois reconhecemos que vivemos no país com a 3ª maior população carcerária do mundo, e sabemos quem são os alvos dessa política: mulheres negras e seus filhos. Nos opomos à licença aos policiais para matarem, pautada no projeto anti-crime do Ministro da Justiça Sérgio Moro. A medida intensificará a violência cujo alvo serão as favelas e periferias, onde corpos negros são identificados como bandidos e mulheres de bandidos.

  • Justiça para Marielle significa também dignidade nas favelas e periferias, que são massacradas pelas forças policiais todos os dias. Significa reivindicar o fim da violência que nos faz contar corpos de policiais e de moradores e moradoras das comunidades. É pelas vidas faveladas, pela vida das mulheres! É afirmar que lugar de mulher é sim na política!

  • Há cada vez mais indícios de que o assassinato da companheira Marielle não foi algo pontual, mas um atentado de poderosos à democracia que deve ser investigado a fundo. Quem mandou matar Marielle Franco e Anderson Gomes? Queremos justiça por Marielle, nenhuma a menos!

Por Democracia e Direitos!

  • Desde as grandes mobilizações do #EleNão denunciamos a escalada de violência que tem atingido as mulheres, negras e LGBTs ainda com mais força. Após a intervenção militar e o assassinato de Marielle, vimos proliferar no estado ataques a terreiros de matriz africana, a casais LGBT’s, a militantes feministas e membros de movimentos sociais – crimes de ódio em suas várias formas.