Democracia castrada, sufocada, ceifada


As manifestações em dias úteis são as mesmas que expressam pertinente indignação coletiva e lucidez histórica. Poderosas munições protagonizadas por quem sabe que não é nos finais de semana que se abala os inescrupo-gulosos “Donos Do Bolo”. Aquele manjado bate-entope que o Chef Delfim Netto, confeitou, solou, e nos serviu goela abaixo uma módica e surreal fatia. Uma Massa sem direito a ovos, leite, manteiga, açúcar ou farinha de trigo. Nada a ver com economia, mas sim, com milagre de um santo de retórica oca.


Manifestações que têm suas histórias contadas por fatos flagrados - ainda que tremidos por conta de um estrondo intragável ou de um Choque - em tempo real, garantidos pela gravação contínua e pelo material bruto. E, mesmo via suportes amadores, quem os registra não vacila ao denunciar o ambiente por completo, expondo a veracidade a 360 graus de revelação.


Desde o princípio, manifestações legais, legítimas. Uma inalação coletiva de democracia, até a palavra ser tomada e violada pelos gases vis e bestas balas respaldadas pelos que desdenham da visão periférica. Os mesmos que enxergamos através dos registros rasos, editados ou ditados.

Portanto, viva a Arte da reportagem marginal – que informa a vera, e mesmo pelas beiradas e quebradas, metendo os ombros, na raça, pra escapar ou segurar o tanto de trancos, de broncos, da bronca, venenos ou borracha, consegue botar pra rebolar nas redações palacianas - pelo muito que incomoda e denuncia – a turma do olhar mandado.


E, tome borrachadas. Do Vampiro Interino e a bancada do “Carro da Linguiça” no Congresso, apagando e exterminando conquistas e direitos, de trabalhadores e aposentados. E, nas ruas, os “meganhas”, enquadrando e sentando a borracha em quem, literalmente, sai em defesa de todos os atingidos por esse Planalto Leviatã. Refiro-me aos cidadãos que arriscam suas peles, inclusive, para defender aqueles que criticam as manifestações que não se assemelham as propagandas de refrigerantes.


- Carro da Linguiça: Nome de um grupo de extermínio que atuou por décadas no município de São Gonçalo-RJ.


- Meganha: Policial militar


E, ressalto que é imprescindível atentarmos, ao menos, para duas questões entre tantas outras não menos alarmantes, que explicam bem porque a nossa débil democracia, com a qual muitos brasileiros acostumaram a conviver, segue sendo desfigurada por práticas castradoras, sufocantes e aniquilantes, por parte das forças de repressão, por exemplo, a serviço do PMDB de Temer e Pezão, e do PSDB de Alckimin e Beto Richa.


1 - Somente a partir de 2016 foi que o Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP) da PMERJ, incluiu a disciplina “Tecnologia Não Letal” no currículo do curso que forma novos soldados. Ampliado textualmente de seis para 12 meses de capacitação, o novo programa de aulas conta com 32 disciplinas. A primeira turma formada com base nesta nova grade curricular foi diplomada em outubro do ano passado, após 40 semanas de curso.


1.1 - Identificada como uma arma “não letal”, não apenas por quem as fabrica, como a “Condor Tecnologias Não Letais”, mas também pela maioria das reportagens produzidas nas grandes corporações de mídia, o laudo, a perícia e o sofrimento gerados após a sua utilização, vem reforçando que a mais apropriada definição para um lançador de projetil de borracha, é: “arma menos letal”, ou “de baixa letalidade”. Ou seja: o risco de morte é pequeno, mas existe, é real. Vidas já foram ceifadas, no Brasil e no exterior.


2 - As “Regras de Engajamento” do Ministério da Defesa, são desrespeitadas, no mínimo, em três pontos do quesito que trata das “Regras de caráter geral para uso de arma não letal”: (2.1) - No caso de munições que lançam projéteis de borracha, a visada deverá ser feita, preferencialmente, no centro do corpo, em grandes áreas musculares e, se possível, nos membros inferiores. A cabeça e o pescoço deverão ser evitados. (2.2) - Quando o objetivo for dissuadir oponentes, deverão ser efetuados disparos na altura dos joelhos. (2.3) - Os integrantes da Força de Pacificação, em hipótese alguma, deverão atirar em alvos distantes e situados em locais movimentados que possam oferecer riscos para a população em geral.


Além de saquear o bolso, a dignidade e a vida dos cidadãos do Estado do RJ, o imoral PMDB de Pezão triplicou gastos (R$ 1,45 milhão, em 2016) na compra de "Armas de Baixa Letalidade" da empresa brasileira Condor. Em 2015, R$ 451 mil, segundo matéria de Leandro Resende (CBN-RJ). Portanto, em meio à crise do RJ, a CONDOR do Sr. Carlos Erane de Aguiar (membro do Conselhão de Temer, da FIESP e premiado por O Globo, em 2011) só tem motivos para comemorar cada vez que ocorrem manifestações democráticas no Brasil.


Algumas vítimas – castradas ou ceifadas – por balas de borracha


- Edvaldo da Silva Alves, 19 anos (vítima de disparo fatal).


Sexta-feira, 17 de março de 2017, na cidade de Itambé, zona da mata de Pernambuco. Ao ser atingido por uma de bala de borracha, em disparo a queima roupa, Edvaldo da Silva Alves veio a falecer na madrugada da terça-feira, 11 de abril, após quase um mês lutando pela vida na UTI do hospital Miguel Arraes, em Paulista.

Junto com outros moradores da região, Edvaldo participava de uma manifestação na rodovia PE-075, em ato que pedia, justamente, por mais segurança no município. Sem que tivesse ameaçado ou agredido algum dos policiais, o jovem foi atingido na virilha esquerda. Quase inconsciente e sangrando muito, Edvaldo ainda foi vítima de mais barbaridade ao ser arrastado pelo asfalto e agredido por um PM que, com auxílio de outro militar, “colocou” o filho de Dona Sebastiana na caçamba do carro da polícia.


- Carlos Alexandre Santos, 32 anos (vítima de disparo fatal)


Em 12 de janeiro de 2015, em Biguaçu, Santa Catarina. Atingido por dois disparos de Taser elétrico (arma de choque) e mais dois de bala de borracha, no peito e na barriga. Carlos morreu dias depois, devido a um quadro de infecção generalizada, em consequência de um disparo que feriu a região próxima à axila direita.

Itamar dos Santos, 35 anos, filho de um policial militar


Sexta-feira, 28 de abril de 2017, na Avenida Chile, centro do Rio de Janeiro, durante as manifestações de abrangência nacional. O carpinteiro Itamar foi atingido gravemente no olho direito.


- Lúcia Santos, funcionária do Ministério Público Federal (MPF)


Sexta-feira, 28 de abril de 2017, a bibliotecária foi ferida no maxilar por um projetil de borracha, quando deixava o trabalho, no centro do RJ.