Precisamos falar sobre aborto

03/12/2016

por Talíria Petrone*

Todo mundo conhece alguém que abortou. Todo mundo conhece alguém que conhece alguém que abortou. Se fosse eu, sua irmã, sua melhor amiga, sua mãe, você desejaria que fôssemos presas ou mortas?

 

Ser contra o aborto é seu direito. E seu direito deve ser respeitado. É contra, não faça. Mas não pode ser seu direito o domínio do corpo e da vida das mulheres que decidirem interromper a gravidez.

 

Por que defendo a legalização do aborto?

 

1 - Mais de um milhão de mulheres interrompem a gravidez por ano no Brasil, mesmo ilegalmente. A ilegalidade não impede o abortamento. Elas abortam porque não têm um companheiro, porque têm insegurança, porque não têm acesso à creche pública, porque não é o momento de serem mães, porque simplesmente não desejam a maternidade.

 

2 – A maioria que aborta é casada, vai à Igreja e já tem filhos. As que podem pagar por uma clínica clandestina segura, pagam e abortam: mesmo estas passam por duros processos de violência. As que não podem, pobres e majoritariamente negras utilizam agulhas de tricô, citotec sem orientação médica, chás diversos, murros na barriga ou vão a clínicas que mais parecem carnificinas. Se procuram um hospital, correm o risco de serem algemadas sangrando nas macas corredores. Muitas delas sangram até morrer, como as milhões de Jandiras brasileiras, esquartejadas pela escolha de não serem mães.

 

3 – O debate do aborto é antes de tudo um debate de saúde pública: garantir a vida das mulheres é papel do poder público. Educação sexual, prevenção, direito de escolher para não morrer: enquanto este debate for tabu, morreremos. Eu defendo a vida e por isso defendo a legalização do aborto.

 

4 – Eu não acredito, mas respeito a CRENÇA de que após a fecundação, já há uma vida na “barriga”. Mas isso é uma crença, baseada na fé religiosa de algumas pessoas. Para que esta fé e outras crenças e também a não crença nisso seja respeitada, o Estado precisa ser laico. Nenhuma lei pode ser baseada na crença de uns: isso ameaça esta própria crença, não é democrático, não tem ao menos respaldo legal. A ilegalidade do abortamento e o entendimento que do imediato “pós-fecundação” já há vida existente são parte de uma crença religiosa, por isso não deveriam ter efeito de lei.

 

5 – Não é verdade que todo mundo vai abortar se for legal. Nenhuma mulher acha legal passar por esse processo, nenhuma mulher vai sorrindo a uma clínica de aborto. É sempre sofrimento. Nos países aonde o aborto é legalizado, os índices de abortamento não aumentam, reduzem. A mortalidade materna chegou a zero no Uruguai. Pare de inventar isso. Até países extremamente católicos, como Portugal, já reviram a legislação punitiva sobre o aborto e o legalizaram. O Brasil é expressão atrasada de conservadorismo que mata mulheres diariamente.

6 – Mesmo em casos previstos na lei, como estupro, as mulheres têm imensa dificuldade para interromper a gravidez do seu agressor. Poucos hospitais realizam o procedimento legal, além de serem pressionadas por iniciativas legislativas diversas e pela culpa que historicamente é oferecida à mulher, a seguirem com a gravidez indesejada. ​​

 

7 - Que tal debatermos gênero e educação sexual na escola para que essa questão deixe de ser tabu e para que não falte informação? Educação sexual pra prevenir, contraceptivo para não engravidar, aborto legal e seguro para não morrer.

Todo mundo conhece alguém que abortou. Todo mundo conhece alguém que conhece alguém que abortou. Se fosse eu, sua irmã, sua melhor amiga, sua mãe, você desejaria que fôssemos presas ou mortas?

 

Ou debatemos amplamente ou continuaremos a morrer.

 

 

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*Talíria Petrone (PSOL) é a vereadora eleita mais votada de Niterói. Professora da rede pública de educação e estudante do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social e Desenvolvimento Regional da UFF.

 

 

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Vídeo informativo da Marcha da Liberdade sobre legalização do aborto:

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