Você sabe o que é capacitismo?

Atualizado: Set 30



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CAPACITISMO

de que se alimenta?
que cara tem?
aonde vive?

Vive um pouco - ou muito - em cada um de nós. não foge não, por favor. Pode parecer que este assunto não é sobre você, mas ele pertence a toda pessoa que vive nessa sociedade, toda pessoa que tem filhos, circula, ensina, constrói por aí. Toda pessoa que respira e se movimenta em espaços coletivos.


Capacitismo é o nosso preconceito - enquanto sociedade - contra a pessoa com deficiência. sim, tem nome. esse preconceito consiste na ideia absurda de que pessoas com deficiência são inferiores às pessoas sem deficiência. anormais. Inválidas. incapazes. fora do padrão definido como perfeito. definido por quem? Nesse contexto, uma característica humana ou condição natural é vista coletivamente como algo que precisa ser superado/arrumado. Um ser humano que precisa de conserto - meu filho não precisa ser consertado. entender isso, que a deficiência faz parte de quem ele é mas jamais vai resumir a sua existência, e que eu, mãe atípica, nasci inserida em uma sociedade preconceituosa e preciso estar atenta para não reproduzir, mudou toda a minha experiência.


Estudando a história da pessoa com deficiência na nossa cultura ocidental, dá pra entender como foi feita essa construção. E assusta. É um histórico de rejeição, abandono e eliminação, dos povos nômades - que deixavam pelo caminho pela segurança do coletivo, sem questões morais, passando pela Grécia antiga - onde inventaram o corpo perfeito e descartavam quaisquer outros corpos, pela idade média - quando começam a trazer a ideia de “castigo de deus” e uma coisa mística, como se fossem criaturas do demônio, até a idade moderna - onde os corpos deficientes passam a ser corpos doentes. de alguma forma sempre marginalizados e excluídos a partir do olhar do outro (por isso gritamos tão forte hoje: nada sobre nós sem nenhum de nós). Depois as guerras - e o aumento considerável das pessoas com deficiência pela violência, revolução industrial - e o valor humano colocado na produção, leis absurdas que proibiam as pessoas com deficiência de ocupar os espaços. fatos assustadoramente recentes.


Faz uns 50, 40, 30 anos pra cá que estas questões passam a ser discutidas e tentativas de humanizar a vivência dessas pessoas passam a ser lei no mundo. Até poucos anos atrás crianças atípicas não tinham direito a escola regular. Por isso hoje, mesmo sendo lei, tantas ainda se sentem no direito de nos negar vagas.


A cultura do capacitismo ainda é tão forte que faz as próprias PCDs duvidarem das suas capacidades. conheci um menino esses tempo que canta maravilhosamente bem. Ele é cego. falei pra ele: tens que te inscrever naquele programa. ele me respondeu: eu não teria nenhuma chance. O capacitismo é essa força, quase invisível, que faz um menino de 11 anos acreditar que não tem direito de sonhar. ele está escondido quando você olha para uma pessoa como coitadinho, ou doente, ou quando sente necessidade de colocar ela no lugar de super heroína, apenas por ter deficiência. aliás essa é a grande hipocrisia desse preconceito - a mesma sociedade que impõe milhões de barreiras para a pessoa com deficiência, entrega uma medalha quando ela é capaz de ultrapassar essas mesmas barreiras.


É capacitismo quando você sai ajudando alguém com deficiência na rua, sem perguntar se ela precisa de ajuda. e quando você pergunta e ela diz: não, obrigada, se sente ofendido, como se ela não tivesse direito de recusar. Ou quando você se dirige apenas a pessoa que está acompanhando a PCD, para falar dela, como se não estivesse ali. É capacitismo quando você infantiliza, muda o tom de voz, ao falar com uma PCD. e quando toca no corpo dela, sem autorização. É capacitismo quando você olha para uma PCD e se sente grato pela sua vida “normal”, e acredita que é impossível felicidade coexistir com deficiência. Ou quando usa os termos “retardado”, “cego”, “surdo” para falar de pessoas que não tem deficiência, na intenção de ofender ou "brincar", não importa.


É capacitismo quando você diz que só quer que seu filho nasça “perfeito” excluindo a existência de 1 bilhão de pessoas no mundo. e quando acredita e diz por aí que a presença de uma criança atípica em sala de aula vai prejudicar o aprendizado das outras crianças. É capacitismo quando você não vê a PCD como uma pessoa, possível profissional, amigo ou amor. É capacitismo quando você se aproxima do meu filho e diz: mas ele é tão bonitinho, né? ou pergunta “ele entende alguma coisa?” já partindo da sua crença que ele não entende nada por estar em uma cadeira de rodas.


É capacitismo quando você fica irritado na fila do banco ou do supermercado porque uma PCD está atrasando o seu dia, sem se perguntar em nenhum momento se ela não está atrasada para o dia dela também (e se alguém estacionado na vaga prioritária indevidamente não atrasou ainda mais) porque você sequer cogita que ela tenha uma vida.


É capacitismo quando você se cala diante do preconceito, por sentir que não é com você.


Essa ideia falha de normalidade, ser humano normal, é antiga e já passou da hora de ser questionada. enfrentar nossos preconceitos não é sobre combater pessoas, é sobre combater ideias tortas que nos trouxeram até aqui. Filipe Roloff, um amigo que compartilho tanto, diz que “não existe afeto mais potente que a busca de conhecimento em direção as pessoas”. E é nisso que acredito. Em direção as pessoas, por afeto, vamos?


Texto de Lau Patrón

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